segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Solidão

«Invadira-me logo pela manhã um grande pesar; parecia-me que todos me evitavam e me abandonavam, tinha a impressão de que toda a gente me deixara na solidão mais completa. (...) A verdade é que, vivendo há oito anos em S. Petersburgo, não consegui ter um único amigo. Mas que é um amigo? O meu amigo é S. Petersburgo. E se esta manhã tive a impressão de que "toda a gente" me abandonara, foi porque S. Petersburgo partia para o campo. Atemorizava-me a ideia de ficar sozinho. Esse receio germinava em mim há já três dias, sem me ser possível explicá-lo, e há três dias que me deixava errar pela cidade (...) Em Weosky, no jardim, pelos cais, nem um único rosto conhecido. É claro que estes rostos conhecidos... não me conhecem a mim; mas eu conheço-os a todos e muito minuciosamente; estudei essas fisionomias, sei compreender as suas alegrias e tristezas, e compartilho-as. Estabeleci estreita amizade (ou algo de muito parecido, pois nunca falámos) com um velhote que quase todos os dias encontrava na Fontanka, à mesma hora. Um venerável velhote, sempre entretido numa infindável discussão consigo próprio, sempre a gesticular com a mão esquerda, e com uma comprida bengala de castão de ouro segura na mão direita. (...) Por isso tínhamos a tentação de trocar cumprimentos ao passar um pelo outro. Não há muito - depois de se passarem dois dias sem nos vermos - fizemos simultaneamente um mesmo gesto de levar a mão ao chapéu. Lembrámo-nos a tempo, porém, de que não nos conhecíamos, e limitámo-nos a trocar um olhar de simpatia.»

Fiódor Dostoiévski em Noites Brancas (tradução de José Marinho, Contraponto)

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