sábado, 22 de março de 2014

A Realidade é uma Estrela de Três Pontas

«Com razão ou sem ela, sempre vivi para escrever. Quase desde a infância, a literatura foi para mim o filtro da experiência (…) A expectativa do livro refina e fortalece os dados da vida vivida. Talvez nada disto seja assim e, na realidade, seja ao contrário: é a imaginação literária que determina, provoca, as restantes situações «reais» da minha vida. Mas se é assim, eu não dou conta. Gostaria de ter consciência de que para mim a realidade não é um facto simples nem pode ser definida por uma única das suas dimensões. Há pessoas para quem a realidade é apenas o mundo objectivo, concreto: uma cadeira é uma cadeira, a montanha sempre ali esteve, a nuvem passa mas obedece às leis da física: tudo isto é real. Para outras pessoas não há realidade senão a interior, a realidade subjectiva. A mente é uma vasta sala vazia que se vai enchendo pouco a pouco, enquanto vivemos, com o mobiliário das percepções. O mundo objectivo existe, mas não tem sentido se não passar pelo crivo da mente. A subjectividade confere realidade a um mundo de objectos mudos, sem vida. Mas há uma terceira dimensão que é onde a minha individualidade entra em contacto com os outros, com a minha sociedade, com a minha cultura. Isto é, existe algo que não é nem paradoxo nem impossibilidade, e que se chama a individualidade colectiva. É nela que me sinto mais realizado, mais satisfeito, mais em consonância com o mundo. (…) Portanto, para mim, a realidade é uma estrela de três pontas: a matéria, a psique e a cultura. A realidade material, a realidade subjectiva e a realidade do encontro do meu eu com o mundo. Não gosto de sacrificar nenhuma delas. Só quando as três estão presentes, posso dizer que sou feliz.»

Carlos Fuentes em Diana ou a Caçadora Solitária (tradução de Maria do Carmo Abreu, Editora Planeta DeAgostini)

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